O digitador

Independentemente de como chamassem seu cargo, era um digitador. Todos os dias digitava dados a respeito de pessoas que haviam cometido crimes, das mais diversas naturezas. Em outros momentos, os dados referiam-se às vítimas. E os dados sempre incluíam o nome completo da pessoa, profissão, nome do pai, nome da mãe, data e local de nascimento, e números de documentos, eventualmente disponíveis.

Um nome pode conter tantas histórias, mas para ele precisavam ser meros nomes, meras sequências de letras encadeadas de forma tal que pudessem identificar um infrator, um desajustado, um injustiçado, ou um agente passivo, vítima, receptor da ação criminosa.

Contudo, era inevitável que, a cada data de nascimento digitada, ele se perdesse momentaneamente pensando naquele dia, naquela família recebendo com carinho, vindo do hospital, aquele bebê que, quem diria, causaria tantas dores de cabeça no futuro. Ao ler os nomes, pensava em como o pai devia ter idealizado um futuro brilhante para aquele filho. Como aquela mãe devia ter visualizado, em seus devaneios, o nome de seu recém-nascido estampado em notícias positivas, impresso na tarjeta de uma porta de escritório, "Dr. Fulano".

Nomes geralmente contém histórias. Geralmente são homenagens a algum parente admirável, a alguma personalidade com alguma característica admirável. Mas para ele precisavam ser meros nomes.

E então, na mesma sequência de pensamentos, a aquarela imaginária de tons pastéis era manchada por uma tinta espirrada, pela possível imagem de pais igualmente desajustados, que tiveram na concepção daquele filho um desgosto, que em sua própria relação constituíam um desgosto. Que não se amavam, que não planejaram uma vida a dois que simplesmente aconteceu, se impôs.

Mas os segundos de conjecturas se esvaíam, e esforçava-se para que os nomes continuassem meros nomes. Depois apertava enter, para imprimir o relatório.

O reencontro

Lúcio não via aquele amigo havia muito. Lembrava com saudade dos bons momentos vividos com a turma de antigamente. E agora, anos depois, lá vinha Júlio, virando a esquina. Quantas coisas a se conversar!

Lúcio, porém, já sabia que não conseguiria estender a conversa, por mais que quisesse saber sobre Júlio. Fez, então, o que todos os que, como ele, não conseguem fazer nada nesses momentos de interação social: ensaiou mentalmente o que dizer, durante o tempo em que Júlio levaria para andar os quinze metros que os separavam.

- Júlio! Por onde tem andado? Vi recentemente numa atualização de uma dessas redes sociais que você viajou para a Europa! E como anda a Vera? Vi fotos, e ela parece muito bem. E o relacionamento, já resolveu acabar com a enrolação? Estou vendo a aliança na sua mão direita... noivaram, hein? E a luta contra a balança? A idade não ajuda, né? Estou vendo que você também ganhou uns bons quilos. E o trabalho, muito cansativo? Percebi pelas suas olheiras, deve estar dormindo pouco. Ainda fumando? Senti cheiro de cigarro quando você chegou perto...

Lúcio já sabia as respostas para todas as perguntas que poderia fazer, para que o protocolo social fosse cumprido. No fim das contas, o que se ouviu foi:

- Júlio!

- Lúcio!

- (...).

- (...).

- Tudo bem?

- Tudo joia! Ainda no ramo do entretenimento?

- Ainda lá.

- Abraço em todos por mim!

- Abraço na Vera!

A Lúcio, custava ser como todo o resto.

Noutra

Uma terra onde se pensa criticamente. Uma terra onde não se aceita teorias sem antes pensar sobre o que elas implicam. Uma terra onde os argumentos são pensados. Uma terra em que a noticia só é espalhada depois de verificada. Uma terra em que a ironia é compreendida, em suas várias possíveis camadas de sutileza. Uma terra em que as pessoas sabem aceitar o silêncio que se instala em certos momentos, sem acharem que têm a obrigação de preenchê-lo com baboseiras. Uma terra onde as pessoas usam o Google antes da pergunta simplória.

Uma terra que não é esta aqui.

O Mestre de Cerimônias

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Lúcio era um apresentador de circo. Falar em público era sua função, anunciando que a corda bamba hoje seria sem rede de proteção e que o atirador de facas usaria uma venda em seus olhos. Nunca tinha tido problemas em se comunicar com sua platéia.

Senhoras e senhores, meninos e meninas, todos o ouviam e entendiam com clareza.

Quando então apagavam-se as luzes, recolhiam-se os animais e os rostos eram lavados, Lúcio recolhia-se também, em seu furgão, para renovar as energias e descansar a voz para o dia seguinte.

As pessoas que conviviam com Lúcio, porém, sabiam que havia dois dele. A versão falante e a versão grilo. Lúcio no picadeiro e Lúcio funcional. E por mais que o circo tivesse apresentações frequentes, sua versão prevalecente era a que não conseguia jogar conversa fora.

O que se faz enquanto alguém corta seu cabelo? Conversa-se. O que resta a fazer quando se está preso numa sala de espera? Conversar. Recebeu uma visita? Entretenha-na! Converse com ela!

Mas para Lúcio, todas essas situações eram insustentáveis. Sempre acabava com todas as tentativas de bate-papo. Não conseguia puxar assunto. Até respondia, e genuinamente tentava dar prosseguimento aos assuntos que surgiam, mas era incapaz de impedir que o silêncio eventualmente se instalasse.

Ser calado o incomodava. Por que não conseguia ser como todo o resto? O que custaria falar um pouco de bobagens sobre o tempo, sobre política ou sobre futebol, vez ou outra?

Contudo, custava-lhe.

Depois de anos de agonia, sem saber como proceder com relação aos tagarelas sociais, passou a não mais frequentar estes lugares. Nem barbeiro, nem dentista, nem consultório médico. Nem mercados, nem bares, nem qualquer outro antro de conversa fiada, como os chamava.

Cabeludo, barbudo, dentes mal cuidados, saúde mal cuidada. Lúcio transformou-se num bicho.

De apresentador, em atração do circo.

De atração de circo, em velho rabugento.

E, finalmente, em peso de papel.

Mediano

Era um sujeito mediano. Peso e altura medianos. Nascido em uma família de classe média, estudou em uma escola de qualidade mediana e formou-se com notas na média. Conseguiu um emprego mediano em uma empresa de porte médio, ganhando o salário médio de sua classe profissional. Casou-se com uma mulher de beleza mediana e comprou uma casa num bairro mediano. Passava férias em lugares mais ou menos e fazia programas mais ou menos com sua família. Teve a quantidade média de filhos do brasileiro mediano. Um dia descobriu que nasceu apenas para ter sua história contada num texto mediano de um autor mais ou menos, que no final nem seria publicado, exceto em um meio virtual. O que é, mais ou menos, o que todos fazem hoje em dia.

Apocalipse por encomenda

Então, um dia, alguém estava analisando um calendário Maia e chegou à conclusão de que o mundo acabaria em 2012. Com precisão suficiente para, inclusive, dizer o dia do juízo final. Teorias contrárias surgiram dando conta de que na verdade o calendário indicava apenas o fim de um ciclo, que não necessariamente representava o fim da humanidade.

Mas, para os entusiastas do fim do mundo, mais uma previsão era sempre algo feliz de se ouvir. Aquela emoção do réveillon de 99, aquela aflição gostosa em 11/11/11, às 11 horas e 10 minutos,... enfim, essas pequenas alegrias estavam prestes a retornar.

Pessoalmente, não acredito numa data predefinida. Não vou dizer no que acredito, mas definir o que não, acaba delineando o que sim.

Hoje, porém, um pensamento me tomou de assalto.

A data esta lá, dita aos quatro ventos por todos aqueles que estão ansiosos por uma confirmação da previsão primitiva. Daí chega dezembro e, no dia marcado nada acontece. Ponto negativo pros Maias.

Por outro lado, imagine que algum psicótico, neurótico, louco, desequilibrado, e com acesso aos contatos certos, se disponha a cumprir a profecia. Imagine que o psicopata tenha amigos que trabalhem no LHC, ou então que tenha parceiros no oriente médio, ou ainda que conheça alguém que conheça alguém que possa conhecer alguém com acesso a alguém que trabalhe próximo a uma usina nuclear. Ou que tenha um dedo no governo de alguma potência com um potencial bélico daqueles bem impressionantes. Quando imagino esse maluco, não o imagino maluco internado numa clínica. O imagino maluco daqueles que deram certo na vida. Daqueles dos quais ninguém desconfia. Um Eike Batista com um pino a menos, sei lá.

E então, de posse de uma data hipotética, marcada numa pedra por uma civilização que nem existe mais, que só rastros deixou, o maluco decide, por conta própria, instaurar a destruição em massa.

Os Maias teriam então previsto o maluco?

Ou os Maias, estando errados, acabaram certos, com uma das maiores ações de marketing viral da história da humanidade?

O fato é que nenhum deles estará por aí pra falar: “Eu disse! Era hoje mesmo!”. E nenhum de nós estará lá para dizer "É, acabou".

Apocalipse-nuclear

The Big Friends Theory

Antes de ir direto ao ponto, uma recomendação: não leia este texto. Você não é fã de sériados americanos, você não suporta pessoas que ficam falando sobre isto o tempo todo e você quer matar aquelas pessoas que imitam o jeito dos personagens de seriados americanos. Obrigado por ler até aqui, até o próximo texto, tchau.

Ok, ok. Então você preenche os requisitos. Mas saiba que este texto não é pra qualquer um que apenas assista seriados americanos vez ou outra e ache legalzinho. Este texto é para fãs hardcore de seriados americanos. Não se enquadra? Tchau. Desculpe a perda de tempo. Vá para o facebook postar fotos toscas que não foram tiradas por você pra acharem que você é legal.

Mas olha só! Olha quem chegou ao terceiro parágrafo! Bem vindo(a)! Mas agora, falando sério. Você assistia Friends? Assiste The Big Bang Theory? Não? Só ouviu falar? Então, tecle agora Ctrl+W. Tchau, obrigado pela atenção.

Pronto, agora posso começar a falar, finalmente. O texto é realmente só sobre isto.

Pois bem! Depois de uma maratona de The Big Bang Theory, assistindo freneticamente a todos os episódios em sequência, desde a primeira temporada, terminei me viciando. Um tipo de vício besta, no qual eu não incorria desde que era adolescente. Mas o mais legal é que agora eu posso assistir os episódios à medida em que eles são assistidos lá, nos Estados Unidos. Obrigado, Internet. Você é fera.

Quando adolescente, um dos meus vícios seriadísticos era Friends. Mas eu não tinha TV por assinatura e a TV aberta sempre foi uma porcaria para manter a grade de programação em regularidade, o que, para um fã desse tipo de programa, é um sacrilégio. Então eu era um fãjuto de Friends. Gostava demais, mas não conseguia ver.

Eis que então, depois de velho caduco, ganho da minha esposa o box com todas as 10 temporadas completas de Friends. Já estou na nona, dvd 35/40. Dizer isso me dá até um aperto no peito.

Mas comecei este texto não pra ficar falando de mim, mas sim deles. Agora que estou simultaneamente acompanhando estas duas séries, acabei traçando alguns denominadores comuns. Talvez seja a fórmula mágica. E deve ser mesmo... Friends durou 10 anos no ar. TBBT já está na quinta temporada, e confirmada até pelo menos 2014! Então, sem mais delongas, minhas conclusões preliminares:

Penny é Joey e Rachel, em um único ser. A bela que atrai as atenções, namora com frequência e sonha ser atriz, mas ganha a vida com um trabalho "temporário" que garante o pão.

Dentro de Sheldon, Leonard, Raj e Howard está Ross. E também está David, o namorado cientista de Phoebe que foi embora para Minsk. Dentro de Leonard ainda está um tanto de Chandler, especialmente no que se refere às ocasionais piadas sem graça (mas nisso também está em Howard) e na relação complexa com a mãe (é, nisso também).

Sheldon ainda abriga a paranóia com limpeza e organização de Mônica.

E a porção apaixonada de Ross foi depositada em Leonard que tem uma relação confusa com Rachel, ou melhor, Penny. E o ciclo se fecha.

A pessoa irritante que mantém um relacionamento ocasional com Chandler/Leonard, "Oh! My! God!" Janice, veio à Universidade dar aulas encarnada em Leslie. Porém a irritação recai sobre Sheldon, mas não sem querer como era em Friends, mas intencionalmente,  bullying mesmo.

Os comentários aleatórios, a estranheza, o contraponto do grupo é Raj, onde está embutida Phoebe.

E o bom de tudo isso, é que não sou o único a ter essas opiniões. Há muito mais comparações bem mais detalhadas do que estas que fiz. E ainda, olha o que eu achei por aí:

Então, era isso. Modo geek: DESATIVADO.

Retrospeclixo

Por acaso, num dia frio, abriu uma gaveta que há muito não via a luz. Teve que se esforçar para não deixar cair todos os itens que pulavam dali, gritando por espaço e ar, entre tantas coisas que guardou, não sabia para quê.

Decidiu que era o momento de uma faxina. Os últimos dias de dezembro sempre sugeriam esse tipo de ritual. Estranhamente, porém, os últimos dezembros não haviam sido persuasivos o suficiente, o que podia facilmente ser percebido pela organização das coisas ali.

Muniu-se de uma sacola que funcionaria como “isso não presta” e começou a triagem. O primeiro item que tirou da gaveta foi um recibo, desses amarelos. “Cupom fiscal? Preciso disso?”, pensou. Depois de ler o que havia comprado naquele 13/07/2009, às 14:27, concluiu que não, realmente não precisaria daquilo. Afinal, de que adiantaria, agora, dois anos e meio depois, saber que naquela tarde havia comido iogurte com polpa de frutas e um pão com muçarela e presunto? Pior ainda, de que adiantava, naquele mesmo 13/07/2009, já às 14:28, guardar um documento que dizia o que havia acabado de comprar? Será que não tinham-no deixado sair do mercado com os produtos, mas só com uma descrição deles? Como se dissessem “pode ter certeza, foi isso aí que você comprou! Se não acredita, olhe, daí mesmo, para a sacola que ficará depositada aqui conosco”.

Dando uma segunda olhada no conteúdo da gaveta, viu que não seria prático tirar dali coisa por coisa, para decidir o que não prestava. Então, tentando ser o mais prático possível, despejou todos os comprovantes no chão. Era uma gaveta só de comprovantes. Um porta-comprovantes.

Mas havia também cartões, que um dia estiveram colados a presentes que foram dados em datas especiais, e ainda outros, recebidos em datas aleatórias. E ali estavam embalagens de produtos, fotos, cds sem capas, fitas de vídeo, provas da faculdade, canhotos de cheques emitidos anos antes.

Ainda, todos comprovantes.

Comprovantes de que se teve alguém a quem presentear, de que se teve alguém que se importava com ele, de que a participação naquela promoção era legítima, de que os eventos haviam realmente acontecido, de que aquele refrão repetitivo em sua cabeça não era composição sua, de que a cicatriz tinha origem no tombo filmado, de que, sim, merecia aquela nota, “olha,” havia acertado todas as respostas, e “sim, esses cheques foram todos pagos”.

A sacola do “isso não presta” não comportava mais tanta inutilidade. Como nas grandes estações de coleta de lixo, camada após camada de papel, ele pisava na pilha para que, compactando o entulho, não precisasse de uma segunda opção de armazenamento. Fazendo isso, ele pisava também num passado que estava ali, em minúcias contábeis, esperando para que alguém o fiscalizasse.

Ninguém, porém, fiscalizaria. Durante todos aqueles anos, guardara provas de que havia existido. Uma forma de mostrar que passou por esse mundo. Aquela sacola, cheia de papéis antigos e empoeirados, era como um coração entalhado no tronco de uma árvore, ou um muro pichado, gritando para provar que o entalhador ou que o grafiteiro haviam estado ali.

Para a árvore, machado. Para o muro, tinta. Para seus comprovantes, a lixeira.

E ninguém jamais saberia do iogurte com polpa de frutas.

Dual

Metódico. Os amigos mais esotéricos diziam que era coisa do signo dele. Os mais descolados o achavam um chato. Daqueles que gostam de tudo bem esclarecido, nos mínimos detalhes.

- Ótimo então, fica marcado pro dia 30, às duas da tarde.

- Certo.

Mas então algo novo surgia e mudava o compromisso para algumas horas mais tarde, na cidade vizinha.

- Não vou.

- Como não vai? Precisamos da sua assinatura no projeto!

- Não vou.

Achava que ia morrer. Achava que a mudança repentina era um sinal divino, algo que indicava que seu fim estava próximo. Um medroso que, para encobrir o medo, transformava-se no chato de galocha costumeiro. Vez ou outra, porém, ele próprio precisava mudar os planos que havia feito. Quando a mudança partia dele, tudo bem. Venha o que vier, é assim que vai ser, pensava.

Imprevisível. Os amigos mais esotéricos diziam que era coisa do signo dele. Os mais descolados sabiam que era um louco. Daqueles que não estão nem aí pra nada.

Sua personalidade dual já era velha conhecida dos que o rodeavam. Quando alguma mudança era anunciada, os envolvidos já perguntavam:

- Foi ele que mudou?

- Foi.

- Beleza então, vamos todos!

Ou então:

- Foi ele que mudou?

- Não.

- Droga.

Das vezes em que se envolvia com programações de outras pessoas, procurava saber das condições do local, da estrada, consultava mapas, GPS, sites especializados. Só não consultava o horóscopo porque não acreditava nestas bobagens, dizia.

Certa vez, combinou de apresentar um projeto a um grupo importante de uma cidade vizinha. Reuniu sua equipe, informou horários e combinou o local de saída.

- Vi na previsão que vai...

- Shhhh! Não quero nem saber. Na hora eu vejo como o tempo vai estar.  Mas que vamos, vamos.

E assim seguia sua vida, ora planejada ao extremo, ora imprevisível como deve ser.

Quando sua esposa avisou que a bolsa havia estourado e que o bebê ia nascer, nem se moveu.

- A data marcada pro parto é só em dois dias.

E recebeu, por telefone, em casa, a notícia de que o bebê havia nascido saudável. Mas dali não arredou o pé.

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