Antes de ir direto ao ponto, uma recomendação: não leia este texto. Você não é fã de sériados americanos, você não suporta pessoas que ficam falando sobre isto o tempo todo e você quer matar aquelas pessoas que imitam o jeito dos personagens de seriados americanos. Obrigado por ler até aqui, até o próximo texto, tchau.
Mas olha só! Olha quem chegou ao terceiro parágrafo! Bem vindo(a)! Mas agora, falando sério. Você assistia Friends? Assiste The Big Bang Theory? Não? Só ouviu falar? Então, tecle agora Ctrl+W. Tchau, obrigado pela atenção.
Pronto, agora posso começar a falar, finalmente. O texto é realmente só sobre isto.
Pois bem! Depois de uma maratona de The Big Bang Theory, assistindo freneticamente a todos os episódios em sequência, desde a primeira temporada, terminei me viciando. Um tipo de vício besta, no qual eu não incorria desde que era adolescente. Mas o mais legal é que agora eu posso assistir os episódios à medida em que eles são assistidos lá, nos Estados Unidos. Obrigado, Internet. Você é fera.
Quando adolescente, um dos meus vícios seriadísticos era Friends. Mas eu não tinha TV por assinatura e a TV aberta sempre foi uma porcaria para manter a grade de programação em regularidade, o que, para um fã desse tipo de programa, é um sacrilégio. Então eu era um fãjuto de Friends. Gostava demais, mas não conseguia ver.
Eis que então, depois de velho caduco, ganho da minha esposa o box com todas as 10 temporadas completas de Friends. Já estou na nona, dvd 35/40. Dizer isso me dá até um aperto no peito.
Mas comecei este texto não pra ficar falando de mim, mas sim deles. Agora que estou simultaneamente acompanhando estas duas séries, acabei traçando alguns denominadores comuns. Talvez seja a fórmula mágica. E deve ser mesmo... Friends durou 10 anos no ar. TBBT já está na quinta temporada, e confirmada até pelo menos 2014! Então, sem mais delongas, minhas conclusões preliminares:
Penny é Joey e Rachel, em um único ser. A bela que atrai as atenções, namora com frequência e sonha ser atriz, mas ganha a vida com um trabalho "temporário" que garante o pão.
Dentro de Sheldon, Leonard, Raj e Howard está Ross. E também está David, o namorado cientista de Phoebe que foi embora para Minsk. Dentro de Leonard ainda está um tanto de Chandler, especialmente no que se refere às ocasionais piadas sem graça (mas nisso também está em Howard) e na relação complexa com a mãe (é, nisso também).
Sheldon ainda abriga a paranóia com limpeza e organização de Mônica.
E a porção apaixonada de Ross foi depositada em Leonard que tem uma relação confusa com Rachel, ou melhor, Penny. E o ciclo se fecha.
A pessoa irritante que mantém um relacionamento ocasional com Chandler/Leonard, "Oh! My! God!" Janice, veio à Universidade dar aulas encarnada em Leslie. Porém a irritação recai sobre Sheldon, mas não sem querer como era em Friends, mas intencionalmente, bullying mesmo.
Os comentários aleatórios, a estranheza, o contraponto do grupo é Raj, onde está embutida Phoebe.
E o bom de tudo isso, é que não sou o único a ter essas opiniões. Há muito mais comparações bem mais detalhadas do que estas que fiz. E ainda, olha o que eu achei por aí:
Por acaso, num dia frio, abriu uma gaveta que há muito não via a luz. Teve que se esforçar para não deixar cair todos os itens que pulavam dali, gritando por espaço e ar, entre tantas coisas que guardou, não sabia para quê.
Decidiu que era o momento de uma faxina. Os últimos dias de dezembro sempre sugeriam esse tipo de ritual. Estranhamente, porém, os últimos dezembros não haviam sido persuasivos o suficiente, o que podia facilmente ser percebido pela organização das coisas ali.
Muniu-se de uma sacola que funcionaria como “isso não presta” e começou a triagem. O primeiro item que tirou da gaveta foi um recibo, desses amarelos. “Cupom fiscal? Preciso disso?”, pensou. Depois de ler o que havia comprado naquele 13/07/2009, às 14:27, concluiu que não, realmente não precisaria daquilo. Afinal, de que adiantaria, agora, dois anos e meio depois, saber que naquela tarde havia comido iogurte com polpa de frutas e um pão com muçarela e presunto? Pior ainda, de que adiantava, naquele mesmo 13/07/2009, já às 14:28, guardar um documento que dizia o que havia acabado de comprar? Será que não tinham-no deixado sair do mercado com os produtos, mas só com uma descrição deles? Como se dissessem “pode ter certeza, foi isso aí que você comprou! Se não acredita, olhe, daí mesmo, para a sacola que ficará depositada aqui conosco”.
Dando uma segunda olhada no conteúdo da gaveta, viu que não seria prático tirar dali coisa por coisa, para decidir o que não prestava. Então, tentando ser o mais prático possível, despejou todos os comprovantes no chão. Era uma gaveta só de comprovantes. Um porta-comprovantes.
Mas havia também cartões, que um dia estiveram colados a presentes que foram dados em datas especiais, e ainda outros, recebidos em datas aleatórias. E ali estavam embalagens de produtos, fotos, cds sem capas, fitas de vídeo, provas da faculdade, canhotos de cheques emitidos anos antes.
Ainda, todos comprovantes.
Comprovantes de que se teve alguém a quem presentear, de que se teve alguém que se importava com ele, de que a participação naquela promoção era legítima, de que os eventos haviam realmente acontecido, de que aquele refrão repetitivo em sua cabeça não era composição sua, de que a cicatriz tinha origem no tombo filmado, de que, sim, merecia aquela nota, “olha,” havia acertado todas as respostas, e “sim, esses cheques foram todos pagos”.
A sacola do “isso não presta” não comportava mais tanta inutilidade. Como nas grandes estações de coleta de lixo, camada após camada de papel, ele pisava na pilha para que, compactando o entulho, não precisasse de uma segunda opção de armazenamento. Fazendo isso, ele pisava também num passado que estava ali, em minúcias contábeis, esperando para que alguém o fiscalizasse.
Ninguém, porém, fiscalizaria. Durante todos aqueles anos, guardara provas de que havia existido. Uma forma de mostrar que passou por esse mundo. Aquela sacola, cheia de papéis antigos e empoeirados, era como um coração entalhado no tronco de uma árvore, ou um muro pichado, gritando para provar que o entalhador ou que o grafiteiro haviam estado ali.
Para a árvore, machado. Para o muro, tinta. Para seus comprovantes, a lixeira.
E ninguém jamais saberia do iogurte com polpa de frutas.
Metódico. Os amigos mais esotéricos diziam que era coisa do signo dele. Os mais descolados o achavam um chato. Daqueles que gostam de tudo bem esclarecido, nos mínimos detalhes.
- Ótimo então, fica marcado pro dia 30, às duas da tarde.
- Certo.
Mas então algo novo surgia e mudava o compromisso para algumas horas mais tarde, na cidade vizinha.
- Não vou.
- Como não vai? Precisamos da sua assinatura no projeto!
- Não vou.
Achava que ia morrer. Achava que a mudança repentina era um sinal divino, algo que indicava que seu fim estava próximo. Um medroso que, para encobrir o medo, transformava-se no chato de galocha costumeiro. Vez ou outra, porém, ele próprio precisava mudar os planos que havia feito. Quando a mudança partia dele, tudo bem. Venha o que vier, é assim que vai ser, pensava.
Imprevisível. Os amigos mais esotéricos diziam que era coisa do signo dele. Os mais descolados sabiam que era um louco. Daqueles que não estão nem aí pra nada.
Sua personalidade dual já era velha conhecida dos que o rodeavam. Quando alguma mudança era anunciada, os envolvidos já perguntavam:
- Foi ele que mudou?
- Foi.
- Beleza então, vamos todos!
Ou então:
- Foi ele que mudou?
- Não.
- Droga.
Das vezes em que se envolvia com programações de outras pessoas, procurava saber das condições do local, da estrada, consultava mapas, GPS, sites especializados. Só não consultava o horóscopo porque não acreditava nestas bobagens, dizia.
Certa vez, combinou de apresentar um projeto a um grupo importante de uma cidade vizinha. Reuniu sua equipe, informou horários e combinou o local de saída.
- Vi na previsão que vai...
- Shhhh! Não quero nem saber. Na hora eu vejo como o tempo vai estar. Mas que vamos, vamos.
E assim seguia sua vida, ora planejada ao extremo, ora imprevisível como deve ser.
Quando sua esposa avisou que a bolsa havia estourado e que o bebê ia nascer, nem se moveu.
- A data marcada pro parto é só em dois dias.
E recebeu, por telefone, em casa, a notícia de que o bebê havia nascido saudável. Mas dali não arredou o pé.
- Posso me sentar?
- Fique à vontade!
- Ah, que gracinha! É seu?
- Meu sobrinho.
- Qual é seu nome? - perguntou para o menino.
- Rafael. - respondi, vendo que o garoto não estava para papo, enquanto estivesse brincando com meu celular.
- Eu, nem tão cedo vou ter um desses na minha casa. Eu tenho cinco filhos, todos adultos, já saíram de casa, têm filhos grandes, também. Agora, só quando vierem os bisnetos. Você mora por aqui?
Para não alongar o assunto, pois não sou do tipo falante, e evitar explicar que era do interior, mas estava na casa dos meus cunhados, aqui na capital, ali perto do metrô, simplifiquei a história.
- Moro, ali perto do metrô.
- Ah, eu moro aqui também. Mas não sou daqui. Sou de Montes Claros, conhece?
- Nunca fui.
- Ah, é uma cidade linda, está crescendo muito. Já é quase uma Belo Horizonte.
Nisso, Rafael, que tinha saído de perto de mim e ido ao bebedouro, voltou correndo, se jogando no meu colo.
- É seu?
Olhei para ela, para ver se ainda era comigo a conversa. Talvez outro tio desavisado tivesse se aproximado. Mas era comigo.
- É, o meu sobrinho.
- Ah, criança nessa idade é uma graça, não é? Olha que gracinha! Só tem que ficar de olho, né?
- É, é sim.
- Eu, nem tão cedo vou ter um desses na minha casa. Eu tenho cinco filhos, todos adultos já. Já saíram de casa, têm filhos grandes, também. Agora, só quando vierem os bisnetos.
Aproximaram-se de mim, então, Carla e Cíntia, que já tinham terminado de pagar as compras. Junto veio Rafael, querendo calçar a sandalha que tinha sido comprada para ele. Foi quando, de repente, ouvi da senhora:
- Ah, que gracinha! É seu?
Nunca duvidei da existência delas. Porém, saber que elas existiam requeria um exercício de fé e de entendimento que era apenas para alguns, poucos, seletos.
Pronunciá-las de forma vazia não produzia efeito algum, e não adiantava conhecer os sons que as compunham. Se não fosse você o escolhido para proferí-las, nenhum resultado seria alcançado.
Eis que, então, descobri uma que possui poder avassalador.
O efeito dessa palavra mágica pode ser sentido de forma intensa, não só por quem a profere, mas pelos que estão ao redor.
As várias consequências talvez não possam ser enumeradas, mas, como bom aprendiz que sou, faço agora uma lista dos efeitos que percebi:
Atrai, de grandes distâncias, pessoas que há muito não se via.
Faz com que prestadores de serviço sintam-se acuados, ora acelerando a prestação, ora reagindo de forma bruta.
Atrai toda sorte de presentes.
Atrai toda sorte de orações.
Causa transtornos que não teriam de ser transpostos se não se houvesse dito tal encanto.
Gera gastos, mas, proporcionalmente, ganhos.
Induz ao choro e ao riso.
Modifica lares.
Modifica rotinas.
Modifica vidas.
A palavra chave que descobri, só pode ser dita em uníssono, por duas bocas que decidiram, em comum acordo, para sempre só beijarem uma a outra. A palavra mágica que aprendi é composta, na verdade, por três. Depois de dita, há antídotos. Mas, geralmente, deles não se quer valer.
- Sua vagabunda! Te falei que não era pra fazer isso comigo, sua piranha! Toma desgraçada!
Três tiros ecoaram, estrondos, pelo saguão do fórum da pequena cidade do interior. Como tudo havia sido muito rápido, nem a polícia que ali estava presente pôde intervir, mesmo estando a metros de distância do suspeito. A ação não foi preventiva, mas serviu para evitar que os outros três potenciais disparos fossem feitos. O homem descontrolado, agora preso sob a ação de joelhos militares, debatia-se tentando se livrar da prisão instantânea que, por total cegamento causado pelo ódio, não havia conseguido prever.
Num mesmo saguão, o casal desfeito, policiais militares, delegada e investigadores, promotor de justiça, advogados e um juiz. Testemunhas e jornalistas foram o toque de mestre do Acaso, contribuindo para o desenrolar mais dinâmico da história da justiça brasileira.
Não haveria perseguição, pois ali estava o orgulho ferido, imobilizado.
Não haveria necessidade de investigação. Ouvir as testemunhas seria redundante.
Não haveria o que ser relatado pela delegada de polícia ao Ministério Público, considerando que o próprio representante do parquet ali estava presente.
A denúncia não precisaria ser enviada por escrito ao Juiz para que decidisse quanto a sua inépcia. Não havia dúvidas quanto ao que ali se havia visto.
O advogado ainda tentaria dizer que nada daquilo aconteceu.
Os populares decidiriam quanto à autoria, materialidade e motivação do acontecido, tal qual determina a lei.
A sentença seria proferida ali mesmo, a plenos pulmões, pelo Juiz que a tudo também havia testemunhado.
E então, condenado, o ex-marido seria encaminhado, atônito, para a penitenciária que agora era seu novo lar, tendo como última visão de libertado o corpo estirado de sua ex-viva ex-esposa.
Mas os planos do Acaso foram frustrados. A investigação aconteceu, as testemunhas foram ouvidas em sede policial, em datas diferentes; o prazo foi dilatado pois a investigação ainda precisava de mais elementos probatórios. A delegada finalmente relatou o inquérito policial 1818/2011, encaminhando a arma apreendida e os projéteis ao escrivão judicial, para que armazenasse em local seguro até o dia do juri popular. O Promotor ofereceu denúncia, nos termos do artigo 24 do Código de Processo Penal, e esta foi recebida pelo Juiz, que determinou a citação do acusado, para que constituísse um advogado para o defender. Uma audiência foi designada, em que algumas das testemunhas originais foram novamente ouvidas, para confirmarem o que haviam visto. O acusado foi pronunciado e a data para o Juri popular foi marcada. Providências tomadas, o acusado foi condenado, após manifestação dos populares selecionados para compor o conselho de sentença. A sentença condenatória foi, então, proferida a parciais pulmões pelo Juiz, que a tudo havia visto.